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Escrito por: Raimundo Suzart

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Marielle, morta, coloca em cheque a intervenção militar no Rio

15 de Março de 2018

Por Raimundo Suzart - presidente do Sindicato dos Químicos do ABC

Por Raimundo Suzart*

Jovem, mulher, negra, nascida no Complexo da Maré e formada em Sociologia pela PUC Rio e com mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense, Marielle foi a quinta vereadora mais votada na cidade do Rio em 2016, alcançando quase 50 mil votos!

Corajosa e sensível não virou as costas para os seus. Pelo contrário, fez da luta pelo respeito aos moradores das comunidades mais pobres, a marca de seu mandato, o que provavelmente lhe custou a vida. Marielle foi executada covardemente, sem direito a defesa. O motorista da Câmara Municipal que lhe conduzia, Anderson Pedro M. Gomes, também morreu.

Recentemente publicou nas redes sociais uma denúncia contra maus policiais da PM do Rio que estariam “aterrorizando e violentando moradores de Acari”. Há duas semanas, ela passou a ser Relatora da Comissão da Câmara de Vereadores criada para acompanhar a atuação das tropas militares na intervenção federal na segurança pública do Rio.

Nascida na periferia, Marielle conhecia de perto a violência de maus policiais corrompidos pelo narcotráfico ou a serviço de milícias clandestinas que disputam negócios com o crime organizado. Uma guerra diária, onde o único que perde é o morador, principalmente os jovens e negros, que enfrentam mais obstáculos para estudar e encontrar um bom emprego. Marielle era uma exceção a essa triste regra e talvez por isso a mataram.

O Rio e o Brasil necessitam nesse momento de intervenção social, não militar. Necessitam de políticas públicas que gerem emprego decente e trabalho produtivo, de escolas e serviços de saúde de qualidade, de transporte de qualidade e de um sistema de segurança pública que respeite o cidadão e o veja como aliado, não como inimigo. A política econômica do atual governo resulta exatamente no oposto de tudo isso e este é apenas o primeiro de 20 anos de congelamento do orçamento público para garantir o pagamento da dívida para os bancos.

Enquanto o Brasil derrete, Marielle e muitos jovens anônimos, a maioria negros moradores da periferia, são executados pelas balas ou pelas medidas governamentais que matam lentamente. Por isso, nos solidarizamos com as famílias da Marielle e do Anderson e com os movimentos negros, sociais e políticos que perderam uma combatente.

Raimundo Suzart é presidente do Sindicato dos Químicos do ABC