O São João é do Povo: A Festa Junina como Território da Luta de Classes
24 de Junho de 2026
Cultura
Artigo | Por Paulo de Souza Bezerra*
As festas juninas são frequentemente retratadas pela mídia tradicional e pela indústria do turismo como manifestações puramente folclóricas, ingênuas e despolitizadas.
No entanto, para a classe trabalhadora e para o movimento sindical, o São João revela sua verdadeira essência: uma celebração intrinsecamente ligada à identidade camponesa, à cultura popular e, fundamentalmente, à luta de classes.
Longe de ser apenas um momento de distração, a festa é um espaço de resistência onde as tradições do povo confrontam, historicamente, a tentativa de apagamento, elitização e mercantilização de suas vidas.
Para compreender o São João sob a ótica da dialética, basta olhar para a história da quadrilha. O que hoje identificamos como o ápice da celebração matuta tem suas raízes na country dance das classes populares britânicas. Essa dança foi apropriada pela nobreza europeia no século XIII, transformada na sofisticada contradança francesa e exportada para os salões da elite colonial brasileira. Contudo, a história não caminha em linha reta. Ao tocar o solo brasileiro, a classe trabalhadora rural e nordestina operou uma verdadeira revolução cultural: confiscou a dança da aristocracia, subverteu seus passos rígidos e a ressignificou como uma expressão viva da vida no campo. A quadrilha, portanto, nasce de uma disputa de narrativa e de classe.
Hoje, essa disputa continua mais viva do que nunca. A quadrilha moderna deixou de ser apenas uma coreografia festiva para se consolidar como uma ferramenta potente de contestação social e consciência de classe.
Grupos culturais e quadrilhas estilizadas utilizam os palcos para narrar as dores e as vitórias da realidade brasileira, pautando temas urgentes do proletariado, como o combate à fome, o direito à terra e a defesa intransigente dos direitos trabalhistas. É a arte popular cumprindo seu papel de espelho e denúncia.
Por outro lado, o avanço do capital sobre as festividades públicas acendeu um alerta vermelho para os trabalhadores. Testemunhamos uma ofensiva agressiva de apropriação e mercantilização do São João por grandes corporações e elites financeiras. Festivais gigantescos, antes abertos ao povo, são privatizados. A lógica do camarote, dos ingressos com preços proibitivos e da exclusão transforma a antiga festa da colheita e da partilha em um produto corporativo e elitista, segregando os verdadeiros produtores dessa cultura.
No contexto sindical, disputar o significado do São João é defender o direito à memória, à cidade e ao território. A cultura é um direito da classe trabalhadora, não uma mercadoria para o deleite da burguesia. Celebrar o São João de forma consciente é valorizar o camponês que planta o milho, o operário que monta a festa e o artista popular que dá o tom da resistência. Viva o São João popular e a cultura da classe trabalhadora!
*Paulo de Souza Bezerra é secretário do Setorial Química e Plástico da CNQ
*Paulo de Souza Bezerra é secretário do Setorial Química e Plástico da CNQ
